Dia 25/03/2011, no Aristos Pub, aconteceu a festa do DIA MUNDIAL DO TEATRO, promovida pela ACAT - Associação Caxiense de Teatro. Lá muita gente bacana, teatreiros: atores, professores, diretores, produtores, alunos, simpatizantes, etc...
Fazer teatro e, de sua arte, um instrumento "instigador" para a sociedade é extremamente necessário. Mas também precisamos de festa!!!! E nada melhor que reunir um grupo de artistas maravilhosos para se divertirem juntos.
Lá, estavam a coordenação da ACAT, o elenco da Cia2 - Grupo de Teatro, alunos e professores do Espaço Multicultural, Sala de Ensaio, Tem Gente Teatrando, Gente EmCena, entre vários outros.
Aí vai algumas fotos da festa!
E que venha a próxima reunião dançante...
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil
Diário online do ator Márcio Ramos - relatos, pensamentos, agenda, críticas...
quinta-feira, 31 de março de 2011
CARTA DE OSASCO
Essa carta foi realizada no Congresso Brasileiro de Teatro. No momento da finalização, criou-se uma carta (leiam abaixo), que será endereçada a disseminada em todas as instâncias, com solicitações para os artistas de teatro!!!
discutir e refletir sobre as atuais políticas públicas culturais executadas pelas instâncias públicas e privadas;
e assegurar o debate e a implantação das propostas do setor teatral elaboradas e apresentadas à sociedade e ao Estado, ao longo dos últimos oito anos, decidiu:
- criar uma comissão para impetrar uma carta-denúncia que deverá ser entregue em audiência com a Ministra da Secretaria Nacional de Direitos Humanos;
considerando os esforços realizados no Congresso Brasileiro de Teatro (1979, em Arcozelo) Movimento Brasileiro de Teatro de Grupo (anos 80), o Movimento Arte Contra à Barbárie (1998), Redemoinho (2004-2009), Rede Brasileira de Teatro de Rua (2007), que culminaram na elaboração da Lei Prêmio do Teatro Brasileiro,
- exigir, em caráter de urgência, a sua votação pelo Congresso Nacional e, posteriormente, a sua implementação pelo Ministério da Cultura;
- fazer mobilização nacional pela votação imediata do Prêmio Teatro Brasileiro;
A plenária do Congresso Brasileiro de Teatro exige, ainda:
- aprovação imediata do Projeto de Lei PROCULTURA, no qual está inserido o Premio Teatro Brasileiro, com dotação orçamentária própria em Lei especifica;
- a execução, pela FUNARTE, dos editais relacionados ao Fundo Setorial de Artes Cênicas;
- a definição do dia 27 de março como o Dia Nacional de Mobilização do Teatro;
Ficou decidido que a data do 2º. Congresso Brasileiro de Teatro será dias 06,07 e 08 de abril de 2012 em Brasília, Distrito Federal.
Peço que Leiam, e se puderem postem em seus blogs, sites e demais instrumentos de divulgação, pois o encontro teve, inclusive, 6 representantes do Rio grande do Sul (todos da capital) mas as lutas são gerais e nos atingem aqui em Caxias e região!
Abaixo segue a carta:
CARTA DE OSASCO
discutir e refletir sobre as atuais políticas públicas culturais executadas pelas instâncias públicas e privadas;
e assegurar o debate e a implantação das propostas do setor teatral elaboradas e apresentadas à sociedade e ao Estado, ao longo dos últimos oito anos, decidiu:
*considerando os relatos dos congressistas que comprovam que os espaços públicos no Brasil tem sido privatizados, por meio de cobrança de taxas, proibição aos artistas de exercer seu ofício, com o uso de violência física e moral, apesar do artigo 5º da Constituição Federal Brasileira garantir o direito de ir e vir e a liberdade de expressão, entendemos que a mesma está sendo desrespeitada nas instâncias municipal, estadual e federal;
- elaborar instrumentos jurídicos que regulem a ocupação dos prédios públicos ociosos, bem como imóveis que tenham possibilidade de agregar os artistas;- criar uma comissão para impetrar uma carta-denúncia que deverá ser entregue em audiência com a Ministra da Secretaria Nacional de Direitos Humanos;
- apoiar o projeto de lei federal apresentado pelo Dep. Fed. Vicente Cândido, lido em plenária, que regulamenta a garantia deste direito.
E, também,considerando os esforços realizados no Congresso Brasileiro de Teatro (1979, em Arcozelo) Movimento Brasileiro de Teatro de Grupo (anos 80), o Movimento Arte Contra à Barbárie (1998), Redemoinho (2004-2009), Rede Brasileira de Teatro de Rua (2007), que culminaram na elaboração da Lei Prêmio do Teatro Brasileiro,
- exigir, em caráter de urgência, a sua votação pelo Congresso Nacional e, posteriormente, a sua implementação pelo Ministério da Cultura;
- fazer mobilização nacional pela votação imediata do Prêmio Teatro Brasileiro;
A plenária do Congresso Brasileiro de Teatro exige, ainda:
- aprovação imediata do Projeto de Lei PROCULTURA, no qual está inserido o Premio Teatro Brasileiro, com dotação orçamentária própria em Lei especifica;
- a execução, pela FUNARTE, dos editais relacionados ao Fundo Setorial de Artes Cênicas;
- a definição do dia 27 de março como o Dia Nacional de Mobilização do Teatro;
Ficou decidido que a data do 2º. Congresso Brasileiro de Teatro será dias 06,07 e 08 de abril de 2012 em Brasília, Distrito Federal.
- Osasco, 27 de março de 2011, Dia Mundial do Teatro
domingo, 20 de março de 2011
2011 - Do Sétimo Andar (curta metragem)
Ainda no clima de 2010, ano de intensa produção pra galera da Cia2, nos aventuramos numa linguagem diferente - saímos dos palcos de teatro e fomos para o cinema.
Quem acompanha a Cia2 sabe que eu, Márcio Ramos, gosto de me aventurar em setores diferentes da atuação e às vezes vamos parar em "palcos" diferentes. Pra não acharem que - do nada - resolvi escrever um roteiro pra cinema, atuar e produzi-lo, vou abreviar minhas experiências passadas no cinema. Em 2007, após fazer parte do elenco da peça "Extremos", escrita e dirigida por Ana Fuchs, após várias temporadas da peça, ela virou um média metragem nas mãos do pessoal da produtora Spaghetti Filmes. Mais tarde, no início de 2009 filmei um curta chamado "Hoje" (dirigido por Caroline Barrueco), e durante o processo de filmagem observei bastante os bastidores na tentativa de absorver o maior número de informações. Também em 2009, o artista/desenhista e também escritor Frank Furtado - FTF, me convidou para chamar atores para um curta que ele estava desenvolvendo, junto ao SESI, e acabei conquistando o papel de protagonista do curta metragem "Cessar Samsara". Nesse último projeto, outros atores da Cia2 também participaram: Camila Cardoso, Rachel Zílio, Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni e minha aluna Carina Corá. Com essas experiências no cinema, era hora de arriscar novamente.
No início de 2009 escrevi o texto de 5 irmãos, que já imaginava virar um curta. Lembro que procurei colocar várias experiências da minha família ali naquela história: vários irmãos, personalidades diferentes, conflitos, problemas com drogas... Coloquei tudo ali. Pra facilitar, escrevi a história pensando nos atores que seriam meus irmãos na tela - Gabriel Zeni, Douglas Trancoso, Gabriel Leonardelli e Matheus Brusa.
Como todos temos pequenas semelhanças, seria fácil adaptar para virarmos irmãos.
Uma coisa que acho interessante deixar claro é que eu não possuo nenhuma aspiração de virar escritor - escrevo por necessidade. Num momento decisivo da minha mini-história como ator, coloquei algumas metas e para atingi-las - se necessário - iria criar as minhas oportunidades. Se quero atuar e ninguém lembra de mim, me faço ser visto, mas através de trabalho. Se queria participar de mais curtas, e as oportunidades não eram tantas, eu monto o circo todo para poder desenvolver essas oportunidades. No final, esses projetos que eu invento acabam sendo de um aprendizado sem limites, do que apenas receber um texto e personificar tal personagem para outros.
Voltando ao projeto... Com o texto pronto, o próximo passo seria mostrá-lo aos outros atores e propor um projeto de financiamento para produzir o curta.
Reuni os guris, juntos com a Rachel Zílio, que seria a produtora do curta comigo e a proposta foi aceita.
Aqui a ralação começou! Eu e a Rachel nos encontrávamos várias vezes para escrever o projeto.
Era momento de pesquisar, justificar, selecionar profissionais, colocar tudo no papel... Toda a função de produtores - fazer o projeto ser algo "palpável" ao ler ele todo estruturado.
Paralelo a esse momento, eu recebi aulas preciosas com a Isa Molino - colombiana com duas faculdades de cinema - para me dar auxílio na estruturação do roteiro.
Em 1 hora ela me mostrou como criar um roteiro literário e técnico, com todas as dicas e toques que ela poderia dar. E eu ali, como uma esponja absorvendo tudo. Chegava em casa e procurava acrescentar tudo no meu roteiro. Ela me passava seu conhecimento como uma verdadeira educadora, professora - a Isa nunca chegou a pegar meu roteiro e dizer o que eu deveria fazer. Ela me ensinou, usando outros roteiros como exemplo e depois me dizia: "Agora faz isso no teu roteiro!". Uma coisa que tive que me adaptar foi a ver o texto como imagem, pois filme/cinema é pura imagem. Lembro também ela me falando da necessidade de colocar tudo no roteiro, para entregar ao diretor do filme, o Dudão Garcia - da Generall Vídeo Produtora: "Ao ler teu roteiro o Dudão deveria conseguir ver o que eu queria de imagens, mas tudo escrito como eu imaginava. É o momento de tu contar essa história, em imagens, pra ele!"
Gente, que trabalheira! Além de construir o projeto com a Rachel, eu ia finalizando o roteiro (aqui vou fazer um adendo - nem eu e nem a Rachel vivemos somente disso, todos temos outros empregos, que nos ajudam a "sobreviver", toda essa dedicação era feita em momento pós-trabalhos, e tudo isso sem a certeza que teríamos o projeto aprovado. Falo isso para que estiver lendo realmente admirar os produtores culturais de suas cidades.)
Tudo pronto, enviamos o projeto para o FINANCIARTE, da Prefeitura de Caxias do Sul, com o proponente sendo o Gabriel Leonardelli.
Nesse momento percebemos que esse viraria um projeto-anexo da Cia2, pois mais da metade da equipe era da Cia2. Para verem como somos loucos, paralelo com o curta estávamos desenvolvendo as peças "Ao Quadrado", "Ali-se" e "(E)Terno" - sem dúvidas 2010 ficará gravado em nossas vidas!
Não lembro agora quando descobrimos que o curta havia sido aprovado, mas foi no mesmo edital do "Ali-se".
Na ocasião eu fiquei muito feliz, mas não somente pq o filme viraria algo real. Percebi que esse havia sido o primeiro texto/roteiro meu que seria produzido com verba de financiamentos. Pessoas qualificadas receberam projetos, leram e escolheram o meu roteiro. Aos 25 anos tudo estava acontecendo tão rápido.
Passamos o ano de 2010, de Janeiro até Agosto realizando a pré-produção do filme. Nesse processo, pro motivos de outros compromissos "perdi" um dos irmãos do filme - o Matheus. A princípio foi muito frustrante saber que alguém que eu havia escrito o personagem pensando nele, na pessoa dele, não iria fazer parte do filme. Mas aí estava eu e Rachel encabeçando a produção e procurando resolver todas situações que apareciam.
Nesse momento ganhamos uma renovada no projeto, com a adesão do ator Vinicius Padilha no projeto, escalado para o personagem que havia ficado sem ator. Quem nos conhece pessoalmente sabe que o Vini não tem nenhuma semelhança física com os demais atores - assim alterei pequenas coisas no roteiro para ele ser nosso "irmão de criação", seja adotado ou apenas emprestado, coisa que acontece em muitas famílias.
Esse processo de pré-produção foi o mais difícil pra mim, pois aqui eu vi coisas que eu havia escrito, criado, serem reviradas e tratadas como "material", pelos demais profissionais. Não estava acostumado com isso, os demais projetos que havia produzido (p/ o teatro) sempre focou muito o desenvolvimento de minhas ideias e ali não era isso que acontecia. Cinema é uma verdadeira "colcha de retalhos", cada profissional (diretor de arte: Giovana Mazzochi e Douglas Trancoso, de fotografia; Isa Molino, editor: Evandro Garcia, diretor: Eduardo "Dudão" Garcia, produtor: Rachel Zílio e Márcio Ramos, atores: Douglas Trancoso, Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni, Márcio Ramos e Vinicius Padilha) desenvolvem seus cargos e um soma ao trabalho do outro. Novamente, novas experiências de crescimento.
Durante o processo, tomei uma postura de não misturar meus diferentes cargos - quando eu seria ator, só seria ator, não atuaria como produtor. O mesmo com o escritor, que acabei deixando bastante de lado. As vezes os atores questionavam coisas sobre seus personagens e sobre a história e eu pensava: "Quero que eles me vejam como colega de elenco, não escritor. Quero ficar no mesmo clima deles, sem diferenciação de cargos." Ajudou em alguns momentos, mas em outros eu senti que poderia ter acrescentando TANTO, e acabei me calando. Mas aprendizado é isso...
Um momento muito mágico, na pré-produção foi a preparação de elenco, com o diretor/professor Raulino Prezzi. Ele conduziu a preparação com tanta maestria que chegamos a comentar: "Nós atores já éramos amigos, mas após o trabalho com o Rau nós nos tornamos irmãos!".
Quando começaram as filmagens, descobri que o aprendizado não havia chegado nem na metade.
Como disse Fernanda Montenegro: "Cinema é a arte da espera". Gente, como atores tem que ser providos com a qualidade da paciência. As vezes filmávamos 30 minutos e esperávamos 3 horas até a próxima cena.
Claro, isso num projeto independente, que mesmo tento financiamento, a grana recebida não chega nem a 1/3 do necessário para realmente desenvolver um curta com toda qualidade necessária. Sendo assim, tínhamos poucos profissionais na técnica, cada um desenvolvendo funções além de seus cargos.
Gravamos aos finais de semana, em geral eram cerca de 20 horas de trabalho por dia de filmagem.
Lembro de um momento onde teatro e cinema se distanciaram como nunca pra mim. No teatro (como falei no post anterior), quando encontramos a verdade do momento em cena é delicioso, e não existe "quebra", pq em cena desenvolvemos essas emoções num crescente, ao vivo, como na vida real. No cinema eu já estava ciente da quebra de clima, com tantos cortes, "takes", planos e repetições. Mas dentro de cada um deles (por mais pequenos que sejam) temos a chance de entrar no clima do personagem e encontrar a verdade daquele "take". Numa das minhas cenas mais dramáticas, onde meu personagem se "abria emocionalmente" pela primeira vez com os irmãos, presenciei o cinema em sua totalidade:
Quem assiste a cena, pensa que todos atores estavam juntos na cena, mas como o quarto onde filmamos era pequeno, eu tive que filmar minhas cenas sozinho, sem os irmãos. Era necessário eu olhar para marcas na parede e imaginar os atores ali. O desafio era construir o "desmoronamento emocional" do personagem, porém olhando para uma parede - sem ter a reação dos atores na minha frente, pra trocar nossa energia.
Mas o maior desafio era me emocionar, cortar, parar a filmagem, me emocionar de novo, cortar, parar a filmagem... Lembro que o pessoal da técnica estava conversando e eu, em silêncio sentado numa cama tentando entrar no clima, mas a conversa dos outros me desconcentrava. Pensei em pedir silêncio, mas logo pensei: "Hum...vão achar que estou dando uma de diva, exigindo coisas!". Quando ia desistir de pedir silêncio, lembrei: pessoas irão assistir isso! Não importa se agora pensarem que estou "me achando", se preciso de silêncio para atingir o melhor material na filmagem, vou fazer isso.
Depois de pedir pelo silêncio, era hora de mostrar que ele faria diferença na minha atuação. Numa das repetições, onde eu havia realmente me soltado e atingido o ponto emocional do personagem, literalmente chorando com ele, um cachorro do vizinho começa a latir e a filmagem foi interrompida. Que frustração! Que raiva! Mas logo lembrei: "Não entra na energia do Márcio, de frustração. Não se permite a sentir o que tu está sentindo. Continua no personagem. Continua com a energia que ele tem que adquirir.".
Um processo psicológico de auto-controle, paciência, desafio... Tudo muito intenso.
Filmagem concluída, era momento de iniciar a pós-produção. Nesse momento, o trabalho maior ficou por conta da galera da Generall Vídeo Produtora, de montar, construir, editar e finalizar o filme.
Em Janeiro de 2011 marcamos a estreia do filme, e eu nem imaginava que outro forte momento emocional me esperava. Quando assisti o filme pronto, pela primeira vez, e vi ali todas as imagens que a Isa havia me ensinado a transcrever, todos os diálogos que havia escrito, toda a experiência do início ao fim - tudo veio a tona. Mas o mais lindo foi entrar no filme e assistir ele como material artístico pronto, palpável.
Quando estava acabando o filme, me controlei pra não desabar chorando. Chorando de felicidade, pois o filme havia se tornado real.
Até o próximo post,
Márcio Ramos
Quem acompanha a Cia2 sabe que eu, Márcio Ramos, gosto de me aventurar em setores diferentes da atuação e às vezes vamos parar em "palcos" diferentes. Pra não acharem que - do nada - resolvi escrever um roteiro pra cinema, atuar e produzi-lo, vou abreviar minhas experiências passadas no cinema. Em 2007, após fazer parte do elenco da peça "Extremos", escrita e dirigida por Ana Fuchs, após várias temporadas da peça, ela virou um média metragem nas mãos do pessoal da produtora Spaghetti Filmes. Mais tarde, no início de 2009 filmei um curta chamado "Hoje" (dirigido por Caroline Barrueco), e durante o processo de filmagem observei bastante os bastidores na tentativa de absorver o maior número de informações. Também em 2009, o artista/desenhista e também escritor Frank Furtado - FTF, me convidou para chamar atores para um curta que ele estava desenvolvendo, junto ao SESI, e acabei conquistando o papel de protagonista do curta metragem "Cessar Samsara". Nesse último projeto, outros atores da Cia2 também participaram: Camila Cardoso, Rachel Zílio, Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni e minha aluna Carina Corá. Com essas experiências no cinema, era hora de arriscar novamente.
No início de 2009 escrevi o texto de 5 irmãos, que já imaginava virar um curta. Lembro que procurei colocar várias experiências da minha família ali naquela história: vários irmãos, personalidades diferentes, conflitos, problemas com drogas... Coloquei tudo ali. Pra facilitar, escrevi a história pensando nos atores que seriam meus irmãos na tela - Gabriel Zeni, Douglas Trancoso, Gabriel Leonardelli e Matheus Brusa.
Como todos temos pequenas semelhanças, seria fácil adaptar para virarmos irmãos.
Uma coisa que acho interessante deixar claro é que eu não possuo nenhuma aspiração de virar escritor - escrevo por necessidade. Num momento decisivo da minha mini-história como ator, coloquei algumas metas e para atingi-las - se necessário - iria criar as minhas oportunidades. Se quero atuar e ninguém lembra de mim, me faço ser visto, mas através de trabalho. Se queria participar de mais curtas, e as oportunidades não eram tantas, eu monto o circo todo para poder desenvolver essas oportunidades. No final, esses projetos que eu invento acabam sendo de um aprendizado sem limites, do que apenas receber um texto e personificar tal personagem para outros.
Voltando ao projeto... Com o texto pronto, o próximo passo seria mostrá-lo aos outros atores e propor um projeto de financiamento para produzir o curta.
Reuni os guris, juntos com a Rachel Zílio, que seria a produtora do curta comigo e a proposta foi aceita.
Aqui a ralação começou! Eu e a Rachel nos encontrávamos várias vezes para escrever o projeto.
Era momento de pesquisar, justificar, selecionar profissionais, colocar tudo no papel... Toda a função de produtores - fazer o projeto ser algo "palpável" ao ler ele todo estruturado.
Paralelo a esse momento, eu recebi aulas preciosas com a Isa Molino - colombiana com duas faculdades de cinema - para me dar auxílio na estruturação do roteiro.
Em 1 hora ela me mostrou como criar um roteiro literário e técnico, com todas as dicas e toques que ela poderia dar. E eu ali, como uma esponja absorvendo tudo. Chegava em casa e procurava acrescentar tudo no meu roteiro. Ela me passava seu conhecimento como uma verdadeira educadora, professora - a Isa nunca chegou a pegar meu roteiro e dizer o que eu deveria fazer. Ela me ensinou, usando outros roteiros como exemplo e depois me dizia: "Agora faz isso no teu roteiro!". Uma coisa que tive que me adaptar foi a ver o texto como imagem, pois filme/cinema é pura imagem. Lembro também ela me falando da necessidade de colocar tudo no roteiro, para entregar ao diretor do filme, o Dudão Garcia - da Generall Vídeo Produtora: "Ao ler teu roteiro o Dudão deveria conseguir ver o que eu queria de imagens, mas tudo escrito como eu imaginava. É o momento de tu contar essa história, em imagens, pra ele!"
Gente, que trabalheira! Além de construir o projeto com a Rachel, eu ia finalizando o roteiro (aqui vou fazer um adendo - nem eu e nem a Rachel vivemos somente disso, todos temos outros empregos, que nos ajudam a "sobreviver", toda essa dedicação era feita em momento pós-trabalhos, e tudo isso sem a certeza que teríamos o projeto aprovado. Falo isso para que estiver lendo realmente admirar os produtores culturais de suas cidades.)
Tudo pronto, enviamos o projeto para o FINANCIARTE, da Prefeitura de Caxias do Sul, com o proponente sendo o Gabriel Leonardelli.
Nesse momento percebemos que esse viraria um projeto-anexo da Cia2, pois mais da metade da equipe era da Cia2. Para verem como somos loucos, paralelo com o curta estávamos desenvolvendo as peças "Ao Quadrado", "Ali-se" e "(E)Terno" - sem dúvidas 2010 ficará gravado em nossas vidas!
Não lembro agora quando descobrimos que o curta havia sido aprovado, mas foi no mesmo edital do "Ali-se".
Na ocasião eu fiquei muito feliz, mas não somente pq o filme viraria algo real. Percebi que esse havia sido o primeiro texto/roteiro meu que seria produzido com verba de financiamentos. Pessoas qualificadas receberam projetos, leram e escolheram o meu roteiro. Aos 25 anos tudo estava acontecendo tão rápido.
Passamos o ano de 2010, de Janeiro até Agosto realizando a pré-produção do filme. Nesse processo, pro motivos de outros compromissos "perdi" um dos irmãos do filme - o Matheus. A princípio foi muito frustrante saber que alguém que eu havia escrito o personagem pensando nele, na pessoa dele, não iria fazer parte do filme. Mas aí estava eu e Rachel encabeçando a produção e procurando resolver todas situações que apareciam.
Nesse momento ganhamos uma renovada no projeto, com a adesão do ator Vinicius Padilha no projeto, escalado para o personagem que havia ficado sem ator. Quem nos conhece pessoalmente sabe que o Vini não tem nenhuma semelhança física com os demais atores - assim alterei pequenas coisas no roteiro para ele ser nosso "irmão de criação", seja adotado ou apenas emprestado, coisa que acontece em muitas famílias.
Esse processo de pré-produção foi o mais difícil pra mim, pois aqui eu vi coisas que eu havia escrito, criado, serem reviradas e tratadas como "material", pelos demais profissionais. Não estava acostumado com isso, os demais projetos que havia produzido (p/ o teatro) sempre focou muito o desenvolvimento de minhas ideias e ali não era isso que acontecia. Cinema é uma verdadeira "colcha de retalhos", cada profissional (diretor de arte: Giovana Mazzochi e Douglas Trancoso, de fotografia; Isa Molino, editor: Evandro Garcia, diretor: Eduardo "Dudão" Garcia, produtor: Rachel Zílio e Márcio Ramos, atores: Douglas Trancoso, Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni, Márcio Ramos e Vinicius Padilha) desenvolvem seus cargos e um soma ao trabalho do outro. Novamente, novas experiências de crescimento.
Durante o processo, tomei uma postura de não misturar meus diferentes cargos - quando eu seria ator, só seria ator, não atuaria como produtor. O mesmo com o escritor, que acabei deixando bastante de lado. As vezes os atores questionavam coisas sobre seus personagens e sobre a história e eu pensava: "Quero que eles me vejam como colega de elenco, não escritor. Quero ficar no mesmo clima deles, sem diferenciação de cargos." Ajudou em alguns momentos, mas em outros eu senti que poderia ter acrescentando TANTO, e acabei me calando. Mas aprendizado é isso...
Um momento muito mágico, na pré-produção foi a preparação de elenco, com o diretor/professor Raulino Prezzi. Ele conduziu a preparação com tanta maestria que chegamos a comentar: "Nós atores já éramos amigos, mas após o trabalho com o Rau nós nos tornamos irmãos!".
Quando começaram as filmagens, descobri que o aprendizado não havia chegado nem na metade.
Como disse Fernanda Montenegro: "Cinema é a arte da espera". Gente, como atores tem que ser providos com a qualidade da paciência. As vezes filmávamos 30 minutos e esperávamos 3 horas até a próxima cena.
Claro, isso num projeto independente, que mesmo tento financiamento, a grana recebida não chega nem a 1/3 do necessário para realmente desenvolver um curta com toda qualidade necessária. Sendo assim, tínhamos poucos profissionais na técnica, cada um desenvolvendo funções além de seus cargos.
Gravamos aos finais de semana, em geral eram cerca de 20 horas de trabalho por dia de filmagem.
Lembro de um momento onde teatro e cinema se distanciaram como nunca pra mim. No teatro (como falei no post anterior), quando encontramos a verdade do momento em cena é delicioso, e não existe "quebra", pq em cena desenvolvemos essas emoções num crescente, ao vivo, como na vida real. No cinema eu já estava ciente da quebra de clima, com tantos cortes, "takes", planos e repetições. Mas dentro de cada um deles (por mais pequenos que sejam) temos a chance de entrar no clima do personagem e encontrar a verdade daquele "take". Numa das minhas cenas mais dramáticas, onde meu personagem se "abria emocionalmente" pela primeira vez com os irmãos, presenciei o cinema em sua totalidade:
Quem assiste a cena, pensa que todos atores estavam juntos na cena, mas como o quarto onde filmamos era pequeno, eu tive que filmar minhas cenas sozinho, sem os irmãos. Era necessário eu olhar para marcas na parede e imaginar os atores ali. O desafio era construir o "desmoronamento emocional" do personagem, porém olhando para uma parede - sem ter a reação dos atores na minha frente, pra trocar nossa energia.
Mas o maior desafio era me emocionar, cortar, parar a filmagem, me emocionar de novo, cortar, parar a filmagem... Lembro que o pessoal da técnica estava conversando e eu, em silêncio sentado numa cama tentando entrar no clima, mas a conversa dos outros me desconcentrava. Pensei em pedir silêncio, mas logo pensei: "Hum...vão achar que estou dando uma de diva, exigindo coisas!". Quando ia desistir de pedir silêncio, lembrei: pessoas irão assistir isso! Não importa se agora pensarem que estou "me achando", se preciso de silêncio para atingir o melhor material na filmagem, vou fazer isso.
Depois de pedir pelo silêncio, era hora de mostrar que ele faria diferença na minha atuação. Numa das repetições, onde eu havia realmente me soltado e atingido o ponto emocional do personagem, literalmente chorando com ele, um cachorro do vizinho começa a latir e a filmagem foi interrompida. Que frustração! Que raiva! Mas logo lembrei: "Não entra na energia do Márcio, de frustração. Não se permite a sentir o que tu está sentindo. Continua no personagem. Continua com a energia que ele tem que adquirir.".
Um processo psicológico de auto-controle, paciência, desafio... Tudo muito intenso.
Filmagem concluída, era momento de iniciar a pós-produção. Nesse momento, o trabalho maior ficou por conta da galera da Generall Vídeo Produtora, de montar, construir, editar e finalizar o filme.
Em Janeiro de 2011 marcamos a estreia do filme, e eu nem imaginava que outro forte momento emocional me esperava. Quando assisti o filme pronto, pela primeira vez, e vi ali todas as imagens que a Isa havia me ensinado a transcrever, todos os diálogos que havia escrito, toda a experiência do início ao fim - tudo veio a tona. Mas o mais lindo foi entrar no filme e assistir ele como material artístico pronto, palpável.
Quando estava acabando o filme, me controlei pra não desabar chorando. Chorando de felicidade, pois o filme havia se tornado real.
Até o próximo post,
Márcio Ramos
segunda-feira, 14 de março de 2011
2010 - Festa Nacional da Uva
No final de 2009 recebi um convite bem inusitado: coordenar um dos quadros do corso alegórico da Festa da Uva. Em conversa direta com o pessoal da UEBA, Jonas Piccoli e Aline Zilli, que estavam realizando a coordenação do desfile, descobri que seria um conceito diferente para esse desfile que já ultrapassou as tradições da cidade de Caxias do Sul, sendo um evento nacional. Aceitei, é claro! Adoro desafios...
Quando estavamos descobrindo como seria o tema do corso alegórico ("Nos trilhos da história, a estação da colheita"), que tinha concepção e coordenação artística de Renato Filippini e direção de desfile de Vinícius De Tomasi Ribeiro, conhecemos como funcionariam as coisas. O desfile seria dividido em 10 quadros, cada um contanto as últimas 10 décadas da história da cidade de Caxias do Sul. Eu nem sabia qual era o quadro que eu coordenaria, mas quando eles contaram a história do quadro quatro (na década de 40, quando explodia a guerra), senti muita curiosidade sobre esse período da história de caxias, que na escola nunca nos ensinaram - um momento sombrio, de dificuldades. Acabei gostando mais de Caxias, após conhecer esses dados, mas não comentei com ninguém que eu tinha me interessado por esse quadro.
Em reunião geral com todos coordenadores e instrutores, pra minha surpresa, eu iria cuidar justamente do quadro quatro.
Sinopse do Quadro IV - Explode a guerra na década de 40. O mundo veste o luto, o militarismo silencia as manifestações e todos caem na incompreensão. O desrespeito às origens faz desconstruir nossos símbolos e tradições. Poucos se erguem contra a guerra, muitos se sacrificam pela liberdade.
Com o auxílio de Israel Cabral, e movimentação cênica de Gislaine Sacchet, eu teria de conseguir cerca de 200 pessoas para desfilar, em parceria com entidades artísticas. Como sou bem atrapalhado para essas coisas, e o trabalho seria muito mais burocrático do que artístico, convidei minha amiga e colega da Cia2, Rachel Zílio, para dividir a coordenação do desfile.
No nosso quadro tinhamos as seguintes entidades participando: GenteEncena - núcleo Eldorado e núcleo Ana Rech, Servidores em Cena - Grupo da Prefeitura de Caxias do Sul, Cominidade Bairro São Caetano e alunos de teatro da UEBA. Além, é claro, dos integrantes da Cia2: Camila Cardoso, Gabriel Zeni, Gabriel Leonardelli, Guilherme Camelo, Carina Corá, eu e a Rachel.
Foi uma super pressão, principalmente nos dias iniciais de desfile, pois a população sempre esteve acostumada com uma enorme festa popular, representada pelo desfile de rua, e nesse ano as mesmas celebrações estavam muito mais poéticas do que festivas. O popular estava dando espaço para algo mais refinado - e o público não curtiu muito.
O quadro quatro sempre foi visto como algo arriscado, pois era o unico quadro dramático do desfile, então ele poderia não ser muito bem aceito. Mas em meio a críticas de todo desfile, nosso quadro acabou passando desapercebido por muitos - e sabe como são as coisas, quando um fala uma coisa negativa, a maioria passa a reproduzir aquela mesma mensagem sem ao menos questionar. Foi uma enorme lição para todos.
Uma crítica feita pelo jornalista Marcelo Aramis, ao Jornal O Caxiense, no dia 11/03/2010, eles destacam o quatro quatro como um dos pontos altos do desfile:
"Um dos pontos altos do desfile é também o que mais choca a expectativa acomodada. O carro - uma bandeira do Brasil desconstruída - representa o desrespeito às origens, a ditadura militar e a guerra. Vestidos de preto, atores encenam a claustrofobia e a dor da repressão. O público faz cara feia. A festa não é para celebrar os bons momentos? É, mas não só."
Mais um desafio aceito pela Cia2, e cumprido. Lembro que uma das críticas comuns na época era o motivo das pessoas que estavam desfilando não sorrirem tanto. Beleza, os outros quadros passarama sorrir mais. Mas o nosso não tinha como, devido o assunto. Em determinados momentos eu presenciava atores emocionados realizando suas performances, em outros eu via participantes com alguma necessidade física especial desfilando com dificuldade, mas acreditando naquilo que estavam fazendo - é realmente tocanto como uma festa move tantas pessoas. Daí aparecia uma senhora, que estava assistindo o desfile (uma daquelas que deveria ouvir o programa de rádio onde radialistas trucidavam o desfile) começou a gritar para nós: "Sorriam! Sorriam! Vocês tem que sorrir!". Ela estava realmente alterada. Me aproximei dela e fiz sinal para o ouvido, para que ela prestasse atenção à narração do quadro, que ela entenderia o motiva da falta de dentes expostos. Não adiantou. Ela continou a gritar, mas dessa vez com a ajuda de uma outra senhora. Me aproximei mais e disse: "Se não quer ouvir, pelo menos pode respeitar?". Pra que eu fiu falar aquilo!?! A senhora, se pudesse, me batia ali mesmo. Fazer o que? Estávamos quebrando conceitos antigos, o que me fez adorar mais ainda essa experiência.
Abaixo, algumas fotos da galera da Cia2 nos desfiles:
Mas eu acho que o que chocou realmente o público foi isso:
Povo do teatro é fod@ mesmo!
Márcio Ramos
Quando estavamos descobrindo como seria o tema do corso alegórico ("Nos trilhos da história, a estação da colheita"), que tinha concepção e coordenação artística de Renato Filippini e direção de desfile de Vinícius De Tomasi Ribeiro, conhecemos como funcionariam as coisas. O desfile seria dividido em 10 quadros, cada um contanto as últimas 10 décadas da história da cidade de Caxias do Sul. Eu nem sabia qual era o quadro que eu coordenaria, mas quando eles contaram a história do quadro quatro (na década de 40, quando explodia a guerra), senti muita curiosidade sobre esse período da história de caxias, que na escola nunca nos ensinaram - um momento sombrio, de dificuldades. Acabei gostando mais de Caxias, após conhecer esses dados, mas não comentei com ninguém que eu tinha me interessado por esse quadro.
Em reunião geral com todos coordenadores e instrutores, pra minha surpresa, eu iria cuidar justamente do quadro quatro.
Sinopse do Quadro IV - Explode a guerra na década de 40. O mundo veste o luto, o militarismo silencia as manifestações e todos caem na incompreensão. O desrespeito às origens faz desconstruir nossos símbolos e tradições. Poucos se erguem contra a guerra, muitos se sacrificam pela liberdade.
Com o auxílio de Israel Cabral, e movimentação cênica de Gislaine Sacchet, eu teria de conseguir cerca de 200 pessoas para desfilar, em parceria com entidades artísticas. Como sou bem atrapalhado para essas coisas, e o trabalho seria muito mais burocrático do que artístico, convidei minha amiga e colega da Cia2, Rachel Zílio, para dividir a coordenação do desfile.
No nosso quadro tinhamos as seguintes entidades participando: GenteEncena - núcleo Eldorado e núcleo Ana Rech, Servidores em Cena - Grupo da Prefeitura de Caxias do Sul, Cominidade Bairro São Caetano e alunos de teatro da UEBA. Além, é claro, dos integrantes da Cia2: Camila Cardoso, Gabriel Zeni, Gabriel Leonardelli, Guilherme Camelo, Carina Corá, eu e a Rachel.
Foi uma super pressão, principalmente nos dias iniciais de desfile, pois a população sempre esteve acostumada com uma enorme festa popular, representada pelo desfile de rua, e nesse ano as mesmas celebrações estavam muito mais poéticas do que festivas. O popular estava dando espaço para algo mais refinado - e o público não curtiu muito.
O quadro quatro sempre foi visto como algo arriscado, pois era o unico quadro dramático do desfile, então ele poderia não ser muito bem aceito. Mas em meio a críticas de todo desfile, nosso quadro acabou passando desapercebido por muitos - e sabe como são as coisas, quando um fala uma coisa negativa, a maioria passa a reproduzir aquela mesma mensagem sem ao menos questionar. Foi uma enorme lição para todos.
Uma crítica feita pelo jornalista Marcelo Aramis, ao Jornal O Caxiense, no dia 11/03/2010, eles destacam o quatro quatro como um dos pontos altos do desfile:
"Um dos pontos altos do desfile é também o que mais choca a expectativa acomodada. O carro - uma bandeira do Brasil desconstruída - representa o desrespeito às origens, a ditadura militar e a guerra. Vestidos de preto, atores encenam a claustrofobia e a dor da repressão. O público faz cara feia. A festa não é para celebrar os bons momentos? É, mas não só."
Mais um desafio aceito pela Cia2, e cumprido. Lembro que uma das críticas comuns na época era o motivo das pessoas que estavam desfilando não sorrirem tanto. Beleza, os outros quadros passarama sorrir mais. Mas o nosso não tinha como, devido o assunto. Em determinados momentos eu presenciava atores emocionados realizando suas performances, em outros eu via participantes com alguma necessidade física especial desfilando com dificuldade, mas acreditando naquilo que estavam fazendo - é realmente tocanto como uma festa move tantas pessoas. Daí aparecia uma senhora, que estava assistindo o desfile (uma daquelas que deveria ouvir o programa de rádio onde radialistas trucidavam o desfile) começou a gritar para nós: "Sorriam! Sorriam! Vocês tem que sorrir!". Ela estava realmente alterada. Me aproximei dela e fiz sinal para o ouvido, para que ela prestasse atenção à narração do quadro, que ela entenderia o motiva da falta de dentes expostos. Não adiantou. Ela continou a gritar, mas dessa vez com a ajuda de uma outra senhora. Me aproximei mais e disse: "Se não quer ouvir, pelo menos pode respeitar?". Pra que eu fiu falar aquilo!?! A senhora, se pudesse, me batia ali mesmo. Fazer o que? Estávamos quebrando conceitos antigos, o que me fez adorar mais ainda essa experiência.
Abaixo, algumas fotos da galera da Cia2 nos desfiles:
Mas eu acho que o que chocou realmente o público foi isso:
Povo do teatro é fod@ mesmo!
Márcio Ramos
Críticas e Reviews - ALI-SE ...aqui ou acolá...
Espetáculo "ALI-SE ...aqui ou acolá..."
23/11/2010
Jornal Pioneiro
Coluna Sete Dias - "A Gente Viu!"
"Lá e cá da cena
Ali-se...Aqui e Acolá, que a Cia2 - Grupo de Teatro mostrou semana passada no Teatro Pedro Parenti, em Caxias, recria um clássico, inserindo questões, críticas, cacos. A queda no buraco, cena antológica de Lewis Carroll, é feita com projeção de vídeo, instaurando a trama sobre a legião de explorados pela, neste caso, Rainha de Ouros. Neste país, nem tudo é maravilha. As imagens de miséria e poluição evidenciam o caráter denunciativo da montagem. Cá entre nós: o tom maniqueísta, de prédica, que se repete, talvez, não fosse tão necessário. Um chapeleiro maluco e malemolente, à Carmem Miranda, põe o grupo para evoluir, com eficiencia, no samba do jogo cênico. Lá no palco, Beta Padilha, Camila Cardoso, Elvis Barbieri, Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni, Jéssica Pistorello, Rachel Zílio e Vinícius Padilha revelam uma saudável disposição para criar imagens corporais com inventividade.
O trio de cantores atrapalhados, as fitas elásticas vermelhas que prendem os personagens, a citação da brincadeira de imagem e ação e, particularmente, a cena das pastorinhas, com uma delicada referência à morte, finalizada na fusão da movimentação corporal com a imagem do telão, evidenciam acertos da direção de Márcio Ramos e Tefa Polidoro. As cituações irônicas ao universo dos sertanejos universitários e "restarts" são start para divertidas ironias - a rainha dando tchauzinho à soberana da Festuva, idem. São vários os pontos altos da empreitada, também valorizada pela luz de Juarez Barazetti. No entanto, há uma queda de rendimento quando os diálogos se alongam, o que pode ser resolvido à medida em que o espetáculo for mais encenado. Mas, no conjunto, o lá e cá da cena da Cia2 é uma bem articulada proposta na reta final da temporada teatral caxiense de 2010. (Por Carlinhos Santos)
23/11/2010
Jornal Pioneiro
Coluna Sete Dias - "A Gente Viu!"
"Lá e cá da cena
Ali-se...Aqui e Acolá, que a Cia2 - Grupo de Teatro mostrou semana passada no Teatro Pedro Parenti, em Caxias, recria um clássico, inserindo questões, críticas, cacos. A queda no buraco, cena antológica de Lewis Carroll, é feita com projeção de vídeo, instaurando a trama sobre a legião de explorados pela, neste caso, Rainha de Ouros. Neste país, nem tudo é maravilha. As imagens de miséria e poluição evidenciam o caráter denunciativo da montagem. Cá entre nós: o tom maniqueísta, de prédica, que se repete, talvez, não fosse tão necessário. Um chapeleiro maluco e malemolente, à Carmem Miranda, põe o grupo para evoluir, com eficiencia, no samba do jogo cênico. Lá no palco, Beta Padilha, Camila Cardoso, Elvis Barbieri, Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni, Jéssica Pistorello, Rachel Zílio e Vinícius Padilha revelam uma saudável disposição para criar imagens corporais com inventividade.
O trio de cantores atrapalhados, as fitas elásticas vermelhas que prendem os personagens, a citação da brincadeira de imagem e ação e, particularmente, a cena das pastorinhas, com uma delicada referência à morte, finalizada na fusão da movimentação corporal com a imagem do telão, evidenciam acertos da direção de Márcio Ramos e Tefa Polidoro. As cituações irônicas ao universo dos sertanejos universitários e "restarts" são start para divertidas ironias - a rainha dando tchauzinho à soberana da Festuva, idem. São vários os pontos altos da empreitada, também valorizada pela luz de Juarez Barazetti. No entanto, há uma queda de rendimento quando os diálogos se alongam, o que pode ser resolvido à medida em que o espetáculo for mais encenado. Mas, no conjunto, o lá e cá da cena da Cia2 é uma bem articulada proposta na reta final da temporada teatral caxiense de 2010. (Por Carlinhos Santos)
domingo, 13 de março de 2011
Críticas e Reviews - Ao Quadrado
Espetáculo "Ao Quadrado"
02/08/2010
Site Queb - Qual é a Boa?
Coluna Ciranda -
http://www.queb.com.br/
"Eu Vi
Se a proposta era sair de casa, sentar, assistir e se divertir até não poder mais, ponto para eles. Estou falando do novo espetáculo da Cia2, que estreou na última semana, com sucesso de público e crítica. Com humor pra lá de ferino, a trupe comandada por Márcio Ramos, levou á cena quatro quadros que, diga-se de passagem, serviram de bofetadas para muitos espectadores. Sem pudores eles falaram de assuntos que muitas vezes só se falam embaixo dos lençóis, levando, muitas vezes o público ao êxtase da gargalhada (como diria Frejat - porque rir de tudo também é uma forma de desespero).
Destaque para Márcio Ramos no quadro Do Fundão, que faz e acontece com seu jeito debochado de ser, para Vini Padilha, que aos poucos vai descobrindo um certo equilibrio em suas interpretações e para Camila Cardoso que ganha reverência como destaque feminino em todo espetáculo (apesar de gritar muito no quadro Uma Vez Por Mês). Mas sem dúvida nenhuma, no melhor estilo Terça Insana, é Gabriel Leonardelli que arrasa no papel da "viciada" Virgem Maria, no quadro Maria Orgulhosa. Textos bons, mensagens boas, trilha sonora impecável e aplausos calorosos no final. Sem entrar no mérito de querer fazer o público sair do teatro pensando - você acaba saindo quadrado de tanto rir. Rejuvenescimento total." (Por Raulino Prezzi)
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09/12/2010
Jornal Pioneiro
Agenda Cultural -
"Vale Assistir
Quando se vai ao teatro, o fundamental é encontrar verdade no jogo cênico que justifica a ocupação de um palco. Desde que surgiu, a Cia2 - Grupo de Teatro tem crescido justamente por se desafiar. Ao Quadrado é um exercício de grupo, de parcerias. Uns escrevem, outros dirigem, todos encenam. Trata-se de uma dinâmica busca de reinvenção. E, mais uma vez, eles apostam que o humor é um jeito bacana de conquistar o público." (Por Carlinhos Santos)
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02/08/2010
Site The Tramps
http://www.litcine.blogspot.com/
"(Cia2)
AO QUADRADO é uma busca pela simbiose entre a comicidade e o drama, e dá um sentido de unidade no repertório da tão recente Cia2 - Grupo de Teatro. Dentro do projeto "Novos Diretores", a companhia criou um espetáculo coral no qual os esquetes foram escritos e dirigidos pelos próprios atores, expediente este que, creio, auxiliou os mesmos a terem muito mais consciência de suas personas, de suas capacidades como corpos cênicos. Se colocamos os dois trabalhos, o da estréia e este, em perspectiva, há um enorme crescimento demonstrado, tão forte, na opinião deste que vos escreve, que não me parece entusiasmo infundado apontar AO QUADRADO como um dos trabalhos mais interessantes da recente produção teatral caxiense. Nos quatro esquetes podemos degustar textos bem escritos, cheios de referências da geração a que pertencem os artistas que geriram o espetáculo. Há momentos hilários, e tentar exemplificá-los seria condenar o leitor a muito mais linhas, pois não há como exaltar somente alguns destes momentos em detrimento de tantos outros.
Porém, quem conseguir transpor as gargalhadas proporcionadas pelo desempenho solto dos atores, então guiados por forças próprias, verá que cada minuto de AO QUADRADO, encenação que se apresenta abertamente cômica, contém discussões pertinentes, versa sobre alguns dos grandes temas dos quais falei no começo, e pelos quais tanto me interesso. Amor, dissimulação, ódio, tolerância, sexualidade, cegueira religiosa, tudo está lá, muito bem disfarçado pelos trejeitos do elenco, que se beneficia da abertura que o riso provoca para penetrar no público, para discutir assuntos de maneira tão ou mais eficiente do que numa montagem carregada de solenidade. A forma como a Cia2 - Grupo de Teatro combina estas tipologias, faz com que, perdoem-me o preconceito reincidente, eu classifique AO QUADRADO como sendo bem mais do que uma comédia, ao fazer do riso um meio, não um fim." (Por Marcelo Muller)
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07 a 13/08/2010
Jornal O Caxiense
Aritmética Teatral -
"MULTIPLICAÇÕES DE EXPRESSÕES
Na peça Ao Quadrado, da Cia2, o elenco divide funções e encontra a fórmula para garantir resultados positivos.
Acumular funções é comum, inclusive na arte. Roman Polaski escreveu, dirigiu e atuou em A Dança dos Vampiros. Woody Allen é autor, diretor e estrela de grande parte de seus filmes. No papel de Chaves e Chapolin, Roberto Gòmez Bolaños escrevia, dirigia, atuava e até vendia bala na porta do teatro. Diretores-roteiristas-atores, que são de tudo um pouco, ampliam a visão sobre sua arte.
Em Caxias, a proposta mais recente de uma cena multifuncional é da Cia2, companhia de teatro advinda do grupo Atores Reunidos. Duas companhias independentes com o mesmo núcleo de atores. A provocação veio do coordenador da Cia2, Márcio Ramos, no final de 2009. Com o nome de Novos Diretores, o projeto convidou os atores a uma troca de papéis. O resultado foi a peça Ao Quadrado, que motivou elogios além das atuações.
A peça estreou na última terça-feira (31) com o Teatro Municipal praticamente lotado. A sessão de sábado teve aproximadamente 250 pessoas, uma grande platéia para uma noite úmida e fria. São quatro esquetes com o pé na comédia. Não, com o corpo todo. Todas têm autoria e direção dos próprios componentes do grupo. A primeira é o pastelão LeguMaravilha, dirigido por Camila Cardoso e Vinícius Padilha. O ambiente é um programa infantil onde um casal verstido de tomate e cenoura animam a criançada e ao mesmo tempo se hostilizam. Em seguida, em Uma Vez Por Mês, com direção de Gabriel Zeni e Rachel Zílio, um marido enfrenta sua arqui-inimiga: a TPM da esposa. Depois, tem aula de educação sexual com três alunos mais do que escolados na esquete Do Fundão. A direção é de Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni e Márcio Ramos. O destaque da peça é Maria Orgulhosa, onde a Virgem é retratada como uma burocrata cansada de seu serviço, julgar as almas dos desencarnados. Direção nas mãos de Gabriel Leonardelli e Rachel Zílio.
O nome Ao Quadrado é resultado da seguinte fórmula: "nos dividimos em quatro núcleos para desenvolver o trabalho. Perdemos a unidade para ensaiar em quatro grupos pequenos. Então, a Cia2 virou quatro, ao quadrado", calcula Márcio, que segue carreira de ator profissional há nove anos e já teve experiência escrevendo e dirigindo anteriormente. Segundo o ator, esse era o momento de "colocar eles na roda". A intenção foi dar liberdade para cada um cuidar do conjunto de uma peça teatral. A oportunidade foi uma resposta natural ao crescimento do grupo. "Juntou a fome com a vontade de comer", brinca Márcio.
O resultado superou expectativas e mostrou que o ator pode ter interesse - e sucesso - em outras áreas além da atuação. "Eu escrevo não porque que ser autor nem dirijo porque quero ser um grande diretor. Eu me dedico a tudo que me interessa. Tudo reverbera no trabalho do ator", diz Márcio. No início eram três esquetes: a comédia dos legumes na TV e mais dois outros gêneros. Márcio, que seria só ator, envolveu-se com a energia do grupo e quis participar da criação também. Dois meses antes da estréia, escreveu a esquete Do Fundão.
Uma das esquetes que tinha tom mais dramático era escrita por Gabriel Leonardelli. Maria Orgulhosa já foi um drama sobre um garoto de programa e religião, bem distante da leveza da versão final. O tema religioso se manteve. Do drama à comédia, foram dois dias de adaptação. A facilidade pra escrever de Gabriel vem da redação publicitária, por formação, e das aventuras por blogues e crônicas. A visão mais sarcástica presente nos seus escritos gerava reações: "ou o povo me achava nojento ou o povo ria". O tema religião o incomoda, por isso foi escolhido como elemento principal da sua primeira experiência com o texto de teatro. "Mesmo sendo uma comédia, não pode ser vazio. Fico frustrado quando não consigo tirar nada do que estou assistindo".
Além de ser autor do texto, Gabriel também assumiu a direção, com a colega Rachel Zílio, que ocupou-se mais com a produção e a orientação de Gabriel na hora do ensaio, já que ele representa a Maria do título. Gabriel Zeni representa o Anjo Gabriel, assistente puxa-saco da Virgem. Muito da construção dos personagens e da história veio de sugestões e improvisos. Como bem disse Márcio, repetido por Gabriel Leonardelli, "50% é texto ensaiado, outros 50% é improviso, é troca de energia com a platéia".
Gabriel exalta-se ao dizer que dirigir e escrever para si mesmo foi um trabalho difícil e um desafio, não que a atuação seja fácil. "Perco o sono, uma semana antes da estréia eu surto , um dia antes viro um demônio", brinca. Quando a avaliação recai também sobre o texto e direção, o vervosismo triplica. "Sempre espero ter essa preocupação e nervosismo. Não quero nunca estar pronto. Tenho muito chão pela frente", ressalta. "Quero trabalhar para crescer, sempre me descobrir. Vou ser um velhinho caquético que diz "eu tenho muito que aprender".
No esquete Maria Orgulhosa, ele mexe com os brios do dogma católico da virgindade da mãe de Jesus. Gabriel procurou mostrar sua opinião de forma engraçada, mas sempre preocupado para que o texto não atacasse a ninguém. "Queria mexer na ferida mas não ofender ninguém. Mas não fiz nada pra agradar. Comédia que faz isso é babaca, é Zorra Total. Nunca fui de agradinho. Quero fazer vocês pensarem", conta Gabriel.
" (Por Cìntia Hecher)
02/08/2010
Site Queb - Qual é a Boa?
Coluna Ciranda -
http://www.queb.com.br/
"Eu Vi
Se a proposta era sair de casa, sentar, assistir e se divertir até não poder mais, ponto para eles. Estou falando do novo espetáculo da Cia2, que estreou na última semana, com sucesso de público e crítica. Com humor pra lá de ferino, a trupe comandada por Márcio Ramos, levou á cena quatro quadros que, diga-se de passagem, serviram de bofetadas para muitos espectadores. Sem pudores eles falaram de assuntos que muitas vezes só se falam embaixo dos lençóis, levando, muitas vezes o público ao êxtase da gargalhada (como diria Frejat - porque rir de tudo também é uma forma de desespero).
Destaque para Márcio Ramos no quadro Do Fundão, que faz e acontece com seu jeito debochado de ser, para Vini Padilha, que aos poucos vai descobrindo um certo equilibrio em suas interpretações e para Camila Cardoso que ganha reverência como destaque feminino em todo espetáculo (apesar de gritar muito no quadro Uma Vez Por Mês). Mas sem dúvida nenhuma, no melhor estilo Terça Insana, é Gabriel Leonardelli que arrasa no papel da "viciada" Virgem Maria, no quadro Maria Orgulhosa. Textos bons, mensagens boas, trilha sonora impecável e aplausos calorosos no final. Sem entrar no mérito de querer fazer o público sair do teatro pensando - você acaba saindo quadrado de tanto rir. Rejuvenescimento total." (Por Raulino Prezzi)
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09/12/2010
Jornal Pioneiro
Agenda Cultural -
"Vale Assistir
Quando se vai ao teatro, o fundamental é encontrar verdade no jogo cênico que justifica a ocupação de um palco. Desde que surgiu, a Cia2 - Grupo de Teatro tem crescido justamente por se desafiar. Ao Quadrado é um exercício de grupo, de parcerias. Uns escrevem, outros dirigem, todos encenam. Trata-se de uma dinâmica busca de reinvenção. E, mais uma vez, eles apostam que o humor é um jeito bacana de conquistar o público." (Por Carlinhos Santos)
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02/08/2010
Site The Tramps
http://www.litcine.blogspot.com/
"(Cia2)
AO QUADRADO é uma busca pela simbiose entre a comicidade e o drama, e dá um sentido de unidade no repertório da tão recente Cia2 - Grupo de Teatro. Dentro do projeto "Novos Diretores", a companhia criou um espetáculo coral no qual os esquetes foram escritos e dirigidos pelos próprios atores, expediente este que, creio, auxiliou os mesmos a terem muito mais consciência de suas personas, de suas capacidades como corpos cênicos. Se colocamos os dois trabalhos, o da estréia e este, em perspectiva, há um enorme crescimento demonstrado, tão forte, na opinião deste que vos escreve, que não me parece entusiasmo infundado apontar AO QUADRADO como um dos trabalhos mais interessantes da recente produção teatral caxiense. Nos quatro esquetes podemos degustar textos bem escritos, cheios de referências da geração a que pertencem os artistas que geriram o espetáculo. Há momentos hilários, e tentar exemplificá-los seria condenar o leitor a muito mais linhas, pois não há como exaltar somente alguns destes momentos em detrimento de tantos outros.
Porém, quem conseguir transpor as gargalhadas proporcionadas pelo desempenho solto dos atores, então guiados por forças próprias, verá que cada minuto de AO QUADRADO, encenação que se apresenta abertamente cômica, contém discussões pertinentes, versa sobre alguns dos grandes temas dos quais falei no começo, e pelos quais tanto me interesso. Amor, dissimulação, ódio, tolerância, sexualidade, cegueira religiosa, tudo está lá, muito bem disfarçado pelos trejeitos do elenco, que se beneficia da abertura que o riso provoca para penetrar no público, para discutir assuntos de maneira tão ou mais eficiente do que numa montagem carregada de solenidade. A forma como a Cia2 - Grupo de Teatro combina estas tipologias, faz com que, perdoem-me o preconceito reincidente, eu classifique AO QUADRADO como sendo bem mais do que uma comédia, ao fazer do riso um meio, não um fim." (Por Marcelo Muller)
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07 a 13/08/2010
Jornal O Caxiense
Aritmética Teatral -
"MULTIPLICAÇÕES DE EXPRESSÕES
Na peça Ao Quadrado, da Cia2, o elenco divide funções e encontra a fórmula para garantir resultados positivos.
Acumular funções é comum, inclusive na arte. Roman Polaski escreveu, dirigiu e atuou em A Dança dos Vampiros. Woody Allen é autor, diretor e estrela de grande parte de seus filmes. No papel de Chaves e Chapolin, Roberto Gòmez Bolaños escrevia, dirigia, atuava e até vendia bala na porta do teatro. Diretores-roteiristas-atores, que são de tudo um pouco, ampliam a visão sobre sua arte.
Em Caxias, a proposta mais recente de uma cena multifuncional é da Cia2, companhia de teatro advinda do grupo Atores Reunidos. Duas companhias independentes com o mesmo núcleo de atores. A provocação veio do coordenador da Cia2, Márcio Ramos, no final de 2009. Com o nome de Novos Diretores, o projeto convidou os atores a uma troca de papéis. O resultado foi a peça Ao Quadrado, que motivou elogios além das atuações.
A peça estreou na última terça-feira (31) com o Teatro Municipal praticamente lotado. A sessão de sábado teve aproximadamente 250 pessoas, uma grande platéia para uma noite úmida e fria. São quatro esquetes com o pé na comédia. Não, com o corpo todo. Todas têm autoria e direção dos próprios componentes do grupo. A primeira é o pastelão LeguMaravilha, dirigido por Camila Cardoso e Vinícius Padilha. O ambiente é um programa infantil onde um casal verstido de tomate e cenoura animam a criançada e ao mesmo tempo se hostilizam. Em seguida, em Uma Vez Por Mês, com direção de Gabriel Zeni e Rachel Zílio, um marido enfrenta sua arqui-inimiga: a TPM da esposa. Depois, tem aula de educação sexual com três alunos mais do que escolados na esquete Do Fundão. A direção é de Gabriel Leonardelli, Gabriel Zeni e Márcio Ramos. O destaque da peça é Maria Orgulhosa, onde a Virgem é retratada como uma burocrata cansada de seu serviço, julgar as almas dos desencarnados. Direção nas mãos de Gabriel Leonardelli e Rachel Zílio.
O nome Ao Quadrado é resultado da seguinte fórmula: "nos dividimos em quatro núcleos para desenvolver o trabalho. Perdemos a unidade para ensaiar em quatro grupos pequenos. Então, a Cia2 virou quatro, ao quadrado", calcula Márcio, que segue carreira de ator profissional há nove anos e já teve experiência escrevendo e dirigindo anteriormente. Segundo o ator, esse era o momento de "colocar eles na roda". A intenção foi dar liberdade para cada um cuidar do conjunto de uma peça teatral. A oportunidade foi uma resposta natural ao crescimento do grupo. "Juntou a fome com a vontade de comer", brinca Márcio.
O resultado superou expectativas e mostrou que o ator pode ter interesse - e sucesso - em outras áreas além da atuação. "Eu escrevo não porque que ser autor nem dirijo porque quero ser um grande diretor. Eu me dedico a tudo que me interessa. Tudo reverbera no trabalho do ator", diz Márcio. No início eram três esquetes: a comédia dos legumes na TV e mais dois outros gêneros. Márcio, que seria só ator, envolveu-se com a energia do grupo e quis participar da criação também. Dois meses antes da estréia, escreveu a esquete Do Fundão.
Uma das esquetes que tinha tom mais dramático era escrita por Gabriel Leonardelli. Maria Orgulhosa já foi um drama sobre um garoto de programa e religião, bem distante da leveza da versão final. O tema religioso se manteve. Do drama à comédia, foram dois dias de adaptação. A facilidade pra escrever de Gabriel vem da redação publicitária, por formação, e das aventuras por blogues e crônicas. A visão mais sarcástica presente nos seus escritos gerava reações: "ou o povo me achava nojento ou o povo ria". O tema religião o incomoda, por isso foi escolhido como elemento principal da sua primeira experiência com o texto de teatro. "Mesmo sendo uma comédia, não pode ser vazio. Fico frustrado quando não consigo tirar nada do que estou assistindo".
Além de ser autor do texto, Gabriel também assumiu a direção, com a colega Rachel Zílio, que ocupou-se mais com a produção e a orientação de Gabriel na hora do ensaio, já que ele representa a Maria do título. Gabriel Zeni representa o Anjo Gabriel, assistente puxa-saco da Virgem. Muito da construção dos personagens e da história veio de sugestões e improvisos. Como bem disse Márcio, repetido por Gabriel Leonardelli, "50% é texto ensaiado, outros 50% é improviso, é troca de energia com a platéia".
Gabriel exalta-se ao dizer que dirigir e escrever para si mesmo foi um trabalho difícil e um desafio, não que a atuação seja fácil. "Perco o sono, uma semana antes da estréia eu surto , um dia antes viro um demônio", brinca. Quando a avaliação recai também sobre o texto e direção, o vervosismo triplica. "Sempre espero ter essa preocupação e nervosismo. Não quero nunca estar pronto. Tenho muito chão pela frente", ressalta. "Quero trabalhar para crescer, sempre me descobrir. Vou ser um velhinho caquético que diz "eu tenho muito que aprender".
No esquete Maria Orgulhosa, ele mexe com os brios do dogma católico da virgindade da mãe de Jesus. Gabriel procurou mostrar sua opinião de forma engraçada, mas sempre preocupado para que o texto não atacasse a ninguém. "Queria mexer na ferida mas não ofender ninguém. Mas não fiz nada pra agradar. Comédia que faz isso é babaca, é Zorra Total. Nunca fui de agradinho. Quero fazer vocês pensarem", conta Gabriel.
" (Por Cìntia Hecher)
Críticas e Reviews - Paranoia
Espetáculo "PARANOIA (Sit Down Comedy)"
14/11/2008
Site Queb - Qual é a Boa?
Coluna Ciranda -
http://www.queb.com.br/
"Sangue Novo -
A Cia2 - Grupo de Teatro, dirigido por Márcio Ramos, estreou com tudo no último fim-de-semana. A trupe, que levou ao palco da Casa da Cultura o espetáculo "Paranoia", fez e aconteceu. No melhor estilo, esquetes (rápidas e rasteiras), escritas por Márcio, teve um elenco afinado e disposto a entrar no time dos arteiros da cidade. Tefa Polidoro é um caso à parte, ela entra em cena e arrasa. Destaque para as atrizes Rachel Zílio e Camila Cardoso que, com suas performances estreantes, deram conta do recado e mostraram a que vieram." (Por Raulino Prezzi)
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28/05/2009
Jornal Pioneiro
Coluna Sete Dias - "A Gente Viu!"
"Fragmentados ao meio
Paranoia (Sit Down Comedy), apresentada no fim de semana passado no Teatro Pedro Parenti, começa irreverente. Sentados entre a platéia, como se estivessem num banheiro, os atores aludem a MSNs, nicknames, Orkut e salas de bate-papo.
No palco, o roteiro segue mostrando personagens acossados entre memórias, tentativa de diálogo, algumas escatologias, outras perversões, num bric-à-brac de desabafos e pedidos por socorro. Família, igreja e preconceito são alvos destes solilóquios entremeados por movimentos coletivos. Há boa luz para as personagens prêt-à-porter, que emergem no bom recurso de uniformizar o figurino, com uma ou outra roupa vestida na boca de cena, anunciando o próximo número/tipo. A peça se encerra com uma imagem que remete à involução humana de solidões contemporâneas reais entremeadas por comunidades de amigos virtuais.
Entre o bom começo e o belo fim, os fragmentos fragilizam a narrativa. Louva-se, no entanto, a determinação de Márcio Ramos em colocar suas idéias em cena, assinando texto e direção. A Cia2 se lança no teatro caxiense demonstrando vontade cênica. A dramaturgia da montagem é que se esgarça um pouco no decorrer deste espetáculo de estréia. Mas, sem começar, não há caminho a seguir." (Por Carlinhos Santos)
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12 a 18/06/2010
Jornal O Caxiense
Coluna Artes - Teatro -
"Para rir descaradamente
As luzes focam a platéia. Não só algum elemento cênico diferenciado, um efeito. Elas apontam para como somos, fomos, nos comportamos. Como queremos ser, como evitamos aparecer. Talvez não seja tão filosófico assim. Mas que tem um dedo apontado na direção do umbigo, isso tem. Com autoria e direção de Márcio Ramos, Paranoia tem ele e mais sete atores perambulando em cena. São esquetes, cada uma trazendo alguns dos anseios mais comuns ao ser humano.
A peça, que estreou no final de 2008 - ano em que o pessoal da Cia2 passou ensaiando e se preparando para ela -, terá suas últimas apresentações neste final de semana. Últimas na cidade, pelo menos. Será inscrita em festivais para ultrapassar os limites citadinos. E merece alcançar novos públicos, já que por mais espalhadas que estejam no mundo, as pessoas têm tanto em comum que nem fazem idéia. É uma daquelas peças para se identificar, seja na risada contida, na gargalhada, no choro deslavado. No sentido descarado da palavra. Este é até um bom adjetivo para a montagem como um todo. Sem compromisso com regras, frases feitas, pré-conceitos e sisudez. Como subtítulo, carrega a expressão sit down comedy, idéia de Márcio que é contraponto ao agora tão popular (mas nem sempre competente) stand up comedy. Em Paranoia, todo mundo fica é sentado mesmo.
Mas nem só de comédia se vive. Mesmo que existam momentos hilários, há os instantes reflexivos. A solidão é assunto frequente, sendo o medo dela uma das inspirações. Uma das esquetes é exatamente sobre isso, o que obriga o espectador olhar para si e questionar-se "eu me basto?". Gonzaguinha disse que ninguém é feliz sozinho, nem o pobre nem o rei. Tom Jobim corrobora, em Wave, de maneira mais enfática: "é impossível viver sozinho".
Paranoia, como bem alerta com nome, provoca a discussão interna, amplia o "será?". Situações cotidianas são o que aproximam o pública, que acena que sim com a cabeça em várias das situações, desde conversas em banheiro público, secretária de empresa ao telefone, até durante uma festa. Com piadinhas que vão da delicadeza da cantora Sandy ao pavor que a falta de luz traz aos solitários, o espetáculo se contrói, com atuação marcante de talentosos atores da cidade que se vestem com uma roupa cor de pele , nude mesmo. Para marcar mais ainda aquela história de que, na verdade, somos todos iguais. No fundo, temos o mesmo. (Por Cíntia Hecher)
14/11/2008
Site Queb - Qual é a Boa?
Coluna Ciranda -
http://www.queb.com.br/
"Sangue Novo -
A Cia2 - Grupo de Teatro, dirigido por Márcio Ramos, estreou com tudo no último fim-de-semana. A trupe, que levou ao palco da Casa da Cultura o espetáculo "Paranoia", fez e aconteceu. No melhor estilo, esquetes (rápidas e rasteiras), escritas por Márcio, teve um elenco afinado e disposto a entrar no time dos arteiros da cidade. Tefa Polidoro é um caso à parte, ela entra em cena e arrasa. Destaque para as atrizes Rachel Zílio e Camila Cardoso que, com suas performances estreantes, deram conta do recado e mostraram a que vieram." (Por Raulino Prezzi)
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28/05/2009
Jornal Pioneiro
Coluna Sete Dias - "A Gente Viu!"
"Fragmentados ao meio
Paranoia (Sit Down Comedy), apresentada no fim de semana passado no Teatro Pedro Parenti, começa irreverente. Sentados entre a platéia, como se estivessem num banheiro, os atores aludem a MSNs, nicknames, Orkut e salas de bate-papo.
No palco, o roteiro segue mostrando personagens acossados entre memórias, tentativa de diálogo, algumas escatologias, outras perversões, num bric-à-brac de desabafos e pedidos por socorro. Família, igreja e preconceito são alvos destes solilóquios entremeados por movimentos coletivos. Há boa luz para as personagens prêt-à-porter, que emergem no bom recurso de uniformizar o figurino, com uma ou outra roupa vestida na boca de cena, anunciando o próximo número/tipo. A peça se encerra com uma imagem que remete à involução humana de solidões contemporâneas reais entremeadas por comunidades de amigos virtuais.
Entre o bom começo e o belo fim, os fragmentos fragilizam a narrativa. Louva-se, no entanto, a determinação de Márcio Ramos em colocar suas idéias em cena, assinando texto e direção. A Cia2 se lança no teatro caxiense demonstrando vontade cênica. A dramaturgia da montagem é que se esgarça um pouco no decorrer deste espetáculo de estréia. Mas, sem começar, não há caminho a seguir." (Por Carlinhos Santos)
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12 a 18/06/2010
Jornal O Caxiense
Coluna Artes - Teatro -
"Para rir descaradamente
As luzes focam a platéia. Não só algum elemento cênico diferenciado, um efeito. Elas apontam para como somos, fomos, nos comportamos. Como queremos ser, como evitamos aparecer. Talvez não seja tão filosófico assim. Mas que tem um dedo apontado na direção do umbigo, isso tem. Com autoria e direção de Márcio Ramos, Paranoia tem ele e mais sete atores perambulando em cena. São esquetes, cada uma trazendo alguns dos anseios mais comuns ao ser humano.
A peça, que estreou no final de 2008 - ano em que o pessoal da Cia2 passou ensaiando e se preparando para ela -, terá suas últimas apresentações neste final de semana. Últimas na cidade, pelo menos. Será inscrita em festivais para ultrapassar os limites citadinos. E merece alcançar novos públicos, já que por mais espalhadas que estejam no mundo, as pessoas têm tanto em comum que nem fazem idéia. É uma daquelas peças para se identificar, seja na risada contida, na gargalhada, no choro deslavado. No sentido descarado da palavra. Este é até um bom adjetivo para a montagem como um todo. Sem compromisso com regras, frases feitas, pré-conceitos e sisudez. Como subtítulo, carrega a expressão sit down comedy, idéia de Márcio que é contraponto ao agora tão popular (mas nem sempre competente) stand up comedy. Em Paranoia, todo mundo fica é sentado mesmo.
Mas nem só de comédia se vive. Mesmo que existam momentos hilários, há os instantes reflexivos. A solidão é assunto frequente, sendo o medo dela uma das inspirações. Uma das esquetes é exatamente sobre isso, o que obriga o espectador olhar para si e questionar-se "eu me basto?". Gonzaguinha disse que ninguém é feliz sozinho, nem o pobre nem o rei. Tom Jobim corrobora, em Wave, de maneira mais enfática: "é impossível viver sozinho".
Paranoia, como bem alerta com nome, provoca a discussão interna, amplia o "será?". Situações cotidianas são o que aproximam o pública, que acena que sim com a cabeça em várias das situações, desde conversas em banheiro público, secretária de empresa ao telefone, até durante uma festa. Com piadinhas que vão da delicadeza da cantora Sandy ao pavor que a falta de luz traz aos solitários, o espetáculo se contrói, com atuação marcante de talentosos atores da cidade que se vestem com uma roupa cor de pele , nude mesmo. Para marcar mais ainda aquela história de que, na verdade, somos todos iguais. No fundo, temos o mesmo. (Por Cíntia Hecher)
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